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20/01/2009

Animais de estimação fazem bem aos seus donos

Gisele Bündchen supostamente não sofre de um mal meio prosaico que aflige boa parte das pessoas: a falta de companhia...

gisele bunchenCobiçada por bonitões de todos os cantos do mundo, bem-sucedida e dona de uma
conta bancária tão invejável quanto seu corpo, Gisele Bündchen supostamente não
sofre de um mal meio prosaico que aflige boa parte das pessoas: a falta de
companhia. Mas, longe de casa, essa menina de 22 anos nem sempre encontra um
colinho que a ajude a espantar o cansaço e o medo de se machucar na fogueira das
vaidades do mundo das passarelas.

É por isso que a modelo não abre mão da
cumplicidade daquela que considera uma de suas melhores parceiras, Vida. É com
ela que Gisele faz longos passeios pelo Central Park, em Nova York -onde mora a
maior parte do tempo-, conversa, brinca e volta muito melhor. Aliás, estando
estressada ou não, a top model disse que faz questão de reservar um tempo do dia
só para as duas: desliga o telefone, esquece a agenda e mergulha numa espécie de
terapia. "A Vida é minha vida", resume a gaúcha.

Bem longe da "Big
Apple", numa casa de classe média paulistana, a dona-de-casa Aparecida Arruda
("dona Cida"), 79, também cumpre uma rotina terapêutica: logo pela manhã, chama
Touga para comer uma frutinha no jardim e fica observando pacientemente o andar
lento da amiga. Há também o Rambo, um amigo muito especial que, para seu
orgulho, aprendeu a dançar com ela. Assim, um pouquinho com Touga, outro tanto
com Rambo, dona Cida ameniza a saudade que tem do companheiro, Alírio, com quem
foi casada durante 45 anos e que morreu há pouco mais de dois.

Mas o que
Gisele Bündchen e "dona Cida" têm em comum?

Antes, é melhor esclarecer
que Vida é uma cachorra, Touga é uma tartaruga, e Rambo, um papagaio. E o que
elas têm em comum não é o dinheiro, a fama nem o corpo escultural, e sim
histórias de parceria e de afeto com seus bichos.

Vínculos como esses são
bastante comuns e ocorrem não é de hoje. Mas, se até pouco tempo atrás grande
parte das pessoas torcia o nariz ao ouvir histórias de gente que dança com
papagaio ou brinca com tartaruga, hoje as reações são bem diferentes. Por toda
parte do mundo vêm à tona pesquisas, relatos e observações científicas que
buscam provar que os animais são seres inteligentes, não agem apenas por
condicionamento ou instinto, além de poderem ser amigos e até mesmo ajudar na
cura de pacientes.

"Eles não são meras máquinas movidas a instinto como
durante muito tempo se pensou. Possuem estruturas e componentes anatômicos
idênticos aos do homem e, em algumas espécies, bastante desenvolvidos. Além da
inteligência, da capacidade de abstração e de raciocínio, eles têm vontade e
iniciativa de comportamento", diz Irvênia Prado, do Grupo de Pesquisas
Psicobiofísicas e professora de neuranatomia da Faculdade de Medicina
Veterinária da USP, além de autora de vários livros sobre o
assunto.

Diversos estudos endossam essa tese, especialmente os realizados
com chimpanzés, como o trabalho do americano Roger Fouts, doutor em psicologia
comportamental pela Universidade de Nevada, que dedicou 30 anos ao estudo de
chimpanzés e à vivência com eles. Alguns grupos desses animais não só aprenderam
a se comunicar na linguagem de surdos-mudos como transmitiram o conhecimento a
outros do grupo. "Eles inauguraram uma nova linhagem", diz Irvênia.

Ela
cita também os relatos do linguista americano Steven Fischer, diretor do
Instituto de Línguas e Literatura Polinésias, na Nova Zelândia, onde mora e é
considerado estrela de primeira grandeza por seus parceiros da área de
linguística. Ele estudou duas espécies de macaco, cujos testes de Q.I. mostraram
inteligência equivalente à de uma criança de dois anos e meio. Fischer descarta
qualquer delírio de ficção científica ao afirmar que, no futuro, é possível que
possamos nos comunicar com elefantes e dizer a eles para seguir determinado
caminho. Ou alertar aves para que não voem sobre determinada região que está
envenenada por pesticidas. Quem viver, verá, desafia.

A relação entre os
animais e as pessoas pode trazer muitos benefícios. Desde que o afeto seja
mútuo. O biólogo inglês Rupert Sheldrake, doutor em bioquímica em Harvard, onde
também estudou filosofia, narra, em seu último livro lançado no Brasil, a
história de sua gata Remedy, cujo nome foi dado pela mulher, Jill, quando esta
constatou que sua presença carinhosa e "ronronate" era, de fato, um remédio.
"Ela parecia sentir quando era muito necessária e sentava-se ou deitava-se no
meu colo ou no de Jill, colocando sua magia curativa para funcionar", conta
ele.

Sheldrake discorre ainda sobre a conclusão de uma pesquisa da
Universidade de Cambridge em que a maioria das pessoas que haviam adquirido um
cão desenvolveram segurança e auto-estima.

Apaixonada por animais, a
escritora Hilda Hilst reconhece o temperamento de cada um dos cães que convivem
com ela na chácara onde mora. "Há os manhosos, os irritados, os tímidos... Cada
um do seu jeito. Eu os respeito, e eles me respeitam." Muitas gerações de
cachorros -todos vira-latas, como ela chama- a acompanharam nesses seus mais de
70 anos. É em homenagem a eles que escreveu "Com meus Olhos de Cão".

As
emoções e personalidades dos animais são amplamente discutidas pelos americanos
Jeffrey Masson, psicanalista e ex-diretor de projetos dos Arquivos de Sigmund
Freud, e Susan MacCarthy, bióloga, no livro "Quando os Elefantes Choram".
Baseado em estudos científicos e trabalhos de campo relatados por biólogos,
etólogos, treinadores e investigadores do comportamento animal, o livro procura
mostrar que os bichos têm sentimentos como ódio, ciúme e altruísmo.

O
jornalista e também escritor Cláudio Fragata, que lança em breve pela Record "As
Filhas da Gata de Alice Moram Aqui", sempre se manteve bem informado sobre
questões do comportamento dos bichos. Por isso dedica um tratamento especial às
suas três gatinhas, Olívia, Dinah e Sofia -respectivamente avó, mãe e filha. Seu
desafio hoje é harmonizar a relação das três ciumentas com o recém-chegado
Fellini, um filhotinho de três meses. "Elas são assim: têm ciúmes, raiva, medo,
solidariedade, amor, tal como os seres humanos. Isso é visível para quem convive
com os animais. Percebo que minhas gatas sofrem até de tédio. Tem horas que nem
colo, nem ração, nada resolve o problema delas", ironiza.

Maria Lúcia
Pereira Soares, 49, bióloga, é outra que aprendeu a respeitar a personalidade
dos seus bichos -periquitos e canários. Solta-os e deixa que voem o quanto
quiserem. Eles sempre voltam para casa. A única exceção foi Manduca, um
periquito que resolveu fugir com a namorada, Marion. Hoje, ela divide o
apartamento com Pavinha, um canário de 16 anos. Não sai para trabalhar sem se
despedir do passarinho. Ao fechar a porta, não deixa de sentir um certo alívio:
o amigo está meio velho, acomodado e, portanto, não a deixará por qualquer
sirigaita, como fez Manduca.

Além de dar carinho, divertir, acalmar e
fazer companhia, os bichos de estimação às vezes desempenham um papel ainda mais
nobre, ajudando nas perdas, por exemplo. Diversos estudos com pessoas que
perderam seus cônjuges mostram que os donos de animais de estimação estavam
menos propensos à depressão e à sensação de isolamento. Sua saúde era melhor e
exigiam menos medicamentos.
Rupert Sheldrake descreve várias histórias desses
que ele chama de "animais consoladores". São mais de 120 relatos emocionantes,
mas, um dos mais simples, porém dos mais eloquentes, foi feito por Sue Norris,
que assim lhe escreveu: "Sou autista e tenho uma cachorra, a Nikita, que sabe
como eu sou. Ela me consola antes de eu dizer qualquer coisa".

Em São
Paulo, Rafael Preto Pereira, de 8 anos, vive cercado por cachorros, pássaros e,
principalmente, pelo carinho dos pais. Por causa de uma anoxia (redução de
oxigênio) ocorrida no parto, tem uma paralisia cerebral que comprometeu sua
capacidade motora. O tratamento inclui, entre outros, a terapia com cavalos
(equoterapia), em que o movimento do animal ajuda no equilíbrio e no
fortalecimento da musculatura. Quando fala desses amigos, os olhos do garoto
brilham e mostram que os benefícios vão além dos exercícios motores -são também
de ordem emocional.

Já a cachorra Bina faz parte do dia-a-dia do menino e
comporta-se como se fosse uma babá: cuida, protege, faz companhia e, se percebe
que o menino está precisando de um cuidado que ela não pode dar, avisa a mãe,
Rita, latindo sem parar.

Os animais-terapeutas -ou co-terapeutas, como
chamava a psiquiatra Nise da Silveira- são usados ainda com timidez no Brasil.
Nos EUA, mais de 2.000 programas chamados PAT (Pet is a Terapy) levam animais
para visitar doentes, pessoas desamparadas, crianças com doenças crônicas e
idosos.

Sheldrake relata a história de um animal-terapeuta na Inglaterra
que ia com sua dona, Ruth, visitar diariamente um abrigo em Birmingham. Segundo
Ruth, ele sabia exatamente como se comportar diante dos vários pacientes. Com
alguns fazia palhaçadas, com outros se deleitava em carinhos, percebendo o que
cada um necessitava. Fez várias amizades. Uma das amigas, certa noite, pediu à
enfermeira que chamasse o cachorro. Ela estava morrendo. Ele ficou ao lado, com
a cabeça repousando sobre a cama, até o fim.

Os animais podem deixar
belas lições aos homens. Os 13 anos de convivência de Antônio Costella,
professor aposentado da área de comunicações da USP, com seu cachorro,
Chiquinho, é um belo exemplo. Depois de várias viagens pelo exterior com o
parceiro, muito envolvimento e pesquisas para entender melhor comportamento
animal e ecologia, o professor descobriu uma nova maneira de enxergar a vida.
Tornou-se até vegetariano: "Não posso ver um bife no prato que penso no músculo
de algum animal", conta. Para ele, Chiquinho deixou várias lições. "Era um
sujeito que tinha um cachorro, gostava dele, assim como gostava da natureza, mas
só usufruía. Hoje me sinto comprometido com tudo o que faz parte da vida. Veja
só. O amor por um cachorro transformou-se, em mim, em amor por toda a criação",
diz, comovido.

Experiências assim são um convite para tornar as pessoas
mais tolerantes, sensíveis e, principalmente, mais humildes em relação à
complexidade da vida.



Fonte: Folha Online

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